Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Coisas simples: as traições

Sexta-feira, 18.06.10

 

As traições acompanham-nos pela vida fora e é preciso aprender a viver com isso. A primeira traição, e talvez a maior, deve ser quando percebemos que o nosso olhar infantil idealizou as criaturas em redor e os nossos heróis se transformam subitamente em tiranos, grandes e pequenos, talvez sobrando um ou outro, os mais velhos e mais sábios, um olhar amável e um abraço sincero. Todos os outros nos querem domar ou domesticar.

É certo que também nós começamos a trair, não propriamente porque queiramos trair, mas porque isso passa a fazer parte da nossa lógica humana. A pior traição de todas é abandonarmos os nossos sonhos, as nossas esperanças secretas, e baixarmos as expectativas. Essa é de longe a maior traição de todas.

A maior parte das traições humanas nem são premeditadas. E muitas até nem serão traições propriamente ditas. A comunicação entre pessoas é um mundo de mal-entendidos e equívocos, logo, trata-se de tentar desfazer o mal-entendido e o equívoco, se ainda formos a tempo. É que a maior parte das vezes sofremos desnecessariamente com esses desencontros. E há desencontros que são uma verdadeira pena.

 

Se na vida é assim, imaginem agora na política... Percebem onde quero chegar? Aqui temos o mundo predilecto das traições e nem estou a falar de traições entre políticos, esse então deve ser fervilhante de traições e traiçõezinhas diárias. Não, estou a falar de políticos e eleitores.

E nem me estou aqui a colocar no papel de quem não se engana ou se sente traído quando aposta, no voto, numa determinada equipa ou política. Ultimamente até me sinto duplamente traída. Votei a contar com um cenário e sai-me outro. Não votei noutro porque receava que aquilo viesse a acontecer e fui votar precisamente no cenário em que aquilo que mais receava aconteceu... estão a ver o filme?

Agora tentem por uns segundos posicionar-se na situação de um cidadão comum que votou no actual Presidente. E não é o meu caso. Com o que podia contar? Alguém estável, consistente e coerente. Certo? Eu nem sabia que era católico, nunca me tinha apercebido até vê-lo realmente a acompanhar a peregrinação do Papa desde Lisboa ao Porto, passando por Fátima. Não fosse isso, nem saberia que era católico. Portanto, a condição de católico só sobressaiu, digamos assim, nesse período da visita do Papa, não foi? É, pois, irrelevante que seja católico ou não, a não ser pelas expectativas que reforçou no tal cidadão comum.

Semana seguinte à visita do Papa: uma declaração coerente com um veto previsível, não era? Era. Toda a declaração apontava para o veto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas... surprise! Era só para criar suspense no pobre cidadão comum, gozar com a sua cara de miúdo traído: promulga-se a lei para que o cidadão comum não perca mais tempo com pequenos pormenores como esse de incluir no casamento mais esta modalidade, nada de importante realmente...  (1)


Claro que as "elites políticas" e as "elites culturais" concordam com este paternalismo presidencial. O cidadão comum é um ignorante destas coisas da política, deste pragmatismo, desta estratégia. E se se sentiu traído com a promulgação presidencial, paciência! Se o cidadão comum não está satisfeito com o actual Presidente, pense bem antes de movimentar as águas paradas do regime, é que do lamaçal pode surgir uma alternativa bem pior! Até há pouco tempo também pensei assim, qualquer das alternativas é realmente assustadora.

Mas o melhor seguro de vida do PS é o actual Presidente, os socialistas querem-no lá. O actual Presidente é a sua melhor opção. Já repararam como o PS continuou a governar em maioria relativa como se ainda tivesse maioria absoluta? E o Presidente continuou a cooperar como se o PS ainda fosse maioria absoluta? Forçou a aprovação do PEC ainda com Manuela Ferreira Leite, lembram-se? Acarinhou este "bloco central" para esmifrar o contribuinte à socapa, a 13 de Maio. E, mal o Papa voltou a Roma, promulgou a lei fracturante declarando não concordar com ela.

 

Talvez estes episódios só possam ser devidamente analisados mergulhando na segunda camada da realidade, mas a essa segunda camada já o cidadão comum não tem acesso. Apenas pode deduzir, baseando-se nos dados que tem à mão.

Chamem-lhe "maioria mais estúpida do mundo", "idiotas úteis", "shreks da pseudo-direita" (de longe a minha preferida), o que quiserem, o cidadão comum que não se sente representado pelo actual Presidente e que não quer nenhuma das alternativas, tem o direito legítimo de procurar o seu candidato. Alguém realmente independente da política partidária, da lógica paternalista de consensos medíocres e nefastos como esse "bloco central".

O salto que temos de dar é decisivo: é preciso alguém que respeite o país, os cidadãos, a sua história, o seu futuro possível. Que entenda a política de forma inteligente e abrangente.

 



(1) Nota a 22 de Abril de 2013: Passados quase 3 anos sobre este post, gostaria de referir aos Viajantes que por aqui passam que a minha consciência se expandiu, não sei explicar melhor, tornou-se mais abrangente, é como uma visão do grande plano, como aqueles mapas do Google que podemos distanciar ou fazer zoom do local que queremos observar.

Assim, gostaria de clarificar o seguinte (e vou procurar fazer estas correções nos posts com ideias que entretanto abandonei), não porque a minha opinião tenha qualquer peso na vossa perspectiva, mas porque não quero que a minha voz contribua para equívocos de separação entre pessoas, entre vidas, entre sonhos pessoais:

Hoje aceito, sem quaisquer reservas, qualquer modalidade de casamento que se queira introduzir na lei, excepto evidentemente aquelas que sejam contrárias ao princípio de liberdade e responsabilidade, isto é, a vontade expressa e assumida por cada um e a idade que se convencionou como a adequada para a autonomia necessária a uma tal decisão. É que embora sempre tenha considerado como natural a opção por cada forma de organizar a vida, sendo um direito de cada um escolher como quer viver, não sendo essa liberdade individual intrínseca negociável, em relação ao casamento propriamente dito a minha posição era muito fechada e rígida. Simplesmente não conseguia perceber a importância que lhe atribuíam, ao ponto de o querer adaptar e alargar a essa nova modalidade. Pensava eu na altura que isso o iria desvirtuar. Não percebia porque é que não criavam uma modalidade própria, um contrato próprio com outra designação.

Quando começamos a ver o grande plano percebemos que cada um tem o direito de atribuir importância a um sonho que sempre o acompanhou. É essa a dimensão da liberdade e do respeito por si próprio e pelos outros. Este era um dos meus equívocos que fica aqui esclarecido.

 

 


Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:55


Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.








comentários recentes



links

coisas à mão de semear

coisas prioritárias

coisas mesmo essenciais

outras coisas essenciais

coisas em viagem


subscrever feeds